quinta-feira, 2 de outubro de 2008



“Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam,
e nunca reconhecem quando encontram, daquelas que,
se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam.
Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa.
Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poeta
românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é
realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em parte) em vários
romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial
da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista.”

Ah! Lamentavelmente o olhar ia mais fundo ainda, ia além das simples imperfeições e desesperanças de nosso tempo, de nossa espiritualidade, de nossa cultura. Chegava ao coração de toda a humanidade; expressava, num único segundo, toda a dúvida de um pensador, talvez a de um conhecedor da dignidade e sobretudo do sentido da vida humana. Esse olhar dizia: “Veja os macacos que somos! Veja o que é o homem!” E toda celebridade, toda a inteligência, toda a conquista do espírito, todo o afã para alcançar a sublimidade, a grandeza e o duradouro do humano se esboroavam de repente e não passavam de frívolas momices!

Eu trazia no íntimo uma imagem da vida, uma fé, uma exigência; estava disposto a feitos, a sofrimentos e sacrifícios, e logo aos poucos notou que o mundo não lhe pedia nenhuma ação, nenhum sacrifício nem algo semelhante; que a vida não é nenhum poema épico, com rasgos de heróis e coisas parecidas, mas um salão burguês, no qual se vive inteiramente feliz com a comida e a bebida, o café e o tricô, o jogo de cartas e a música de rádio. E quem aspira a outra coisa e traz em si o heróico e o belo, a veneração pelos grandes poetas não passa de um louco ou de um Quixote.

― Eis a arte da vida ― O senhor mesmo pode formar e viver no futuro um jogo de sua própria vida à vontade, desenvolvendo-o e enriquecendo-o; está em suas mãos faze-lo. Assim como a loucura, em seu mais alto sentido, é o principio de toda sabedoria, assim a esquizofrenia é o principio de toda arte, de toda fantasia. Mesmo os homens instruídos chegaram ao reconhecimento parcial desta verdade, como se pode ler no Príncipe Wunderborn, naquele livro encantado no qual o trabalho fatigante e atento de um sábio se vê imortalizado com a colaboração genial de um numero de artistas loucos e recolhidos como os tais.


Ilornë

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